O seu negócio está passando por um momento Kodak?
- Edu Neves

- Dec 4, 2024
- 6 min read

Sim, o software já devorou o mundo
Em sua história, a humanidade passou por diferentes revoluções que viraram a realidade de cabeça para baixo. A agricultura possibilitou as cidades, a prensa móvel democratizou o conhecimento, a eletricidade permitiu dominar a noite e muitos outros exemplos existiram. Porém, nenhuma revolução foi tão intensa, rápida e inesperada como a digital.
Coisas que não poderiam ser imaginadas há dez anos são realidade: reuniões por vídeo se tornando rotineiras, smartphones usados como carteiras, reconhecimento facial para entrar em uma academia de ginástica e países adotando a bitcoin como moeda.
Não existe um momento preciso onde isso começou, porém um artigo publicado no Wall Street Journal em 2011, costuma ser referenciado como o marco da Revolução Digital. Marc Andreessen escreveu que finalmente toda tecnologia para transformar os mercados através do software funcionava e podia ser aplicada em escala global. Era uma época em que a Apple havia se tornado a maior empresa dos Estados Unidos e negócios como Spotify e Netflix cresciam sem parar. Como ele nomeou o artigo, foi quando o software começou a devorar o mundo.

E a velocidade de crescimento dos negócios digitais sempre surpreende. A Kodak talvez seja o exemplo mais conhecido, já que a máquina fotográfica digital foi criada dentro da empresa em 1975, que desprezou o produto, apostou nos filmes tradicionais e decretou falência em 2011. Algo parecido aconteceu com a Blockbuster, que em 2000 teve a oportunidade de comprar a Netflix por U$ 50 milhões e recusou. Dez anos depois a empresa também declarou falência e o que era um negócio de streaming de vídeo hoje vale U$ 270 bilhões.
Estas duas histórias são sobre estratégia, e não tecnologia. É preciso entender o que o seu cliente quer e você pode entender isso usando técnicas simples e efetivas. A Netflix viu que as pessoas não queriam seguir as regras impostas pela Blockbuster, criou um modelo que as atendia e depois usou tecnologia para escalar. O segundo é subestimar o crescimento exponencial do digital. A primeira máquina fotográfica levava 23 segundos para formar uma imagem com 100 linhas em preto e branco, menos de vinte anos depois começou a ser adotada em massa.
A disrupção afeta o seu negócio, diretamente ou pelas bordas
A forma como o crescimento exponencial das tecnologias acontece, foi muito bem explicado por Peter Diamandis e Steven Kotler em seu livro, onde definem os seis Ds da Disrupção, uma sequência comum que acontece em diferentes velocidades e intensidades, sempre causando impactos disruptivos. Tudo começa pela digitalização, já que quando um produto ou serviço se tornar digital é mais fácil de ser acessado, compartilhado e distribuído. Em seguida, vem aquele momento de decepção, com um crescimento inicial decepcionante, porque a tendência não aparenta crescer com velocidade no começo.
O terceiro momento é quando tudo começa a mudar: a decepção é substituída pela disrupção, onde o mercado é completamente modificado à partir da tecnologia exponencial aplicada, vindo na sequência a desmonetização, quando o dinheiro passa a ser continuamente removido da equação ao ponto de ter um custo desprezível, a desmaterialização do hardware que era usado como canal de entrega e, finalmente, a democratização, o momento onde tecnologias poderosas ficam à disposição de cada vez mais gente em todo o mundo.
Isso muda completamente os mercados, como nos casos da Kodak e Blockbuster, e na minha opinião, não tem uma relação direta com tecnologia. Se você procurar por “disrupção” no Google, a chance de chegar na imagem abaixo é bem grande. E ao conversar com quem trabalha com isso, provavelmente o discurso de “se você não for digital, o seu negócio irá desaparecer”, vai surgir e se tornar uma oferta de consultoria. Já pensei da mesma maneira, mas hoje entendo que não é por isso que várias empresas desapareceram nos últimos anos.
O motivo principal é a dificuldade de entender e atender as mudanças nos desejos e expectativas dos clientes. Quando a Netflix foi conversar com a Blockbuster, o streaming comercial de vídeos era lento e comercialmente inviável, porém a penetração da Internet era de 10% ao ano. Em 2012, mais de 75% das pessoas estavam conectadas, o YouTube era visto por 800 milhões de espectadores e a maneira de assistir filmes e séries tinha mudado. A Netflix – e logo depois a Amazon – apostou em uma mudança comportamental que já estava acontecendo com um pequeno e crescente percentual de pessoas, e acertou precisamente. Só que a aposta não tem relação com sorte, e sim com uma teoria criada em 1962.
Como as pessoas mudam o comportamento de consumo?
Em 1962, o professor norte-americano Everett Rogers publicou o livro “Diffusion of Innovations” definindo a Teoria da Difusão das Inovações, onde defende que elas são influenciadas e comunicadas ao longo do tempo entre os membros de um sistema social, e adotadas em ondas formadas por quatro tipos de comportamento das pessoas: inovadoras, adotantes iniciais, maioria inicial, maioria tardia e as retardatárias.
A teoria define que novidades são primeiro adotadas por uma minoria de 2.5%, as pessoas inovadoras. São aquelas que dormem na fila da loja para comprar um novo modelo de iPhone e que aparentam uma alegria enorme quando conseguem ter o produto em mãos. Essa minoria faz barulho em redes sociais, fala com os amigos e influencia a segunda onda, composta por 13,5%, as adotantes iniciais. São seus amigos que sempre estão com algo novo antes de todo mundo.

Estas duas primeiras ondas criam uma massa que precisa superar um “abismo” que existe entre eles e a maioria inicial, ou seja, o ceticismo comum a maioria inicial. Ainda no exemplo do iPhone, é aquela pergunta: “o que eu tenho funciona, por que preciso de um modelo novo?” Quando o abismo é superado, você alcança os 34% que compõe a maioria inicial e, com o tempo, inclui na massa de clientes a maioria tardia e as retardatárias.
Ao analisar como isso acontece no seu mercado ou com a concorrência, você passa a entender quais tendências estão sendo testadas, o que funciona, o que não funciona e de que maneiras tudo isso pode ser aplicado no seu negócio. Longe de ser uma ciência exata, a teoria de difusão das inovações é uma das diversas ferramentas usadas para sair da adivinhação e tomar decisões baseadas em dados. E isso está ao seu alcance.
A economia digital só é uma ameaça se você ignorar os seus clientes
Quando o Uber chegou em Paris, os taxistas agiram como em todas outras cidades: a iminente ameaça da perda de faturamento, escalou para ódio e busca de soluções radicais, na base da canetada governamental. Neste cenário, a G7, empresa de táxis criada em 1905, viu uma oportunidade de se posicionar como um concorrente real para o Uber.
Ela reformulou a sua identidade visual, criou preços fixos para corridas longas, combatendo a tarifa dinâmica e criou um aplicativo para busca e pagamento de táxis, se posicionando como uma empresa digital. Enquanto seus concorrentes buscavam uma solução na marra, a G7 conseguiu inovar, ganhando diversos prêmios de inovação e faturando US$ 67.59 milhões. Isso tudo focando no que o cliente precisava, entendendo a economia digital e se adaptando rápido.
Hoje a questão não é mais se a economia digital irá afetar o seu negócio, e sim quando vai acontecer. Tudo que pode ser digitalizado irá passar pelos Seis Ds da Disrupção e, caso não aconteça com um produto ou serviço, a influência acontecerá nos mercados adjacentes. Pense em o que os bancos estão pensando de seguradoras como a Porto Seguro, varejistas como as Americanas e portais de comércio eletrônico, como o Mercado Pago, entrarem no mercado financeiro com cartões de crédito, carteiras digitais e trade de criptomoedas?
O digital muda o mundo, mas ao entender como as mudanças acontecem e de que maneiras afetam o comportamento das pessoas, você consegue identificar oportunidades, diferenciando o seu negócio e se posicionando à frente da concorrência usando uma das poucas coisas que não podem ser rapidamente copiadas pela tecnologia: a entrega de experiências que os seus clientes querem, atendendo seus desejos e resolvendo suas dores de maneira precisa.
E aí você precisa decidir se o seu negócio será uma Blockbuster negando a mudança e quebrando, ou uma G7 se adaptando e transformando o seu momento Kodak em um crescimento inédito?





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